Prova Cega 2015

Um teste aos sentidos

O Prémio Uva de Ouro é mais do que um compêndio dos melhores vinhos do mercado português: é também o reconhecimento de um legado cultural, uma parte intrínseca da nossa nacionalidade. Acompanhe o seu primeiro momento, a prova cega, através dos olhos – olfato e palato – de um consumidor final.

Vejo, na ficha de classificação da prova, uma palavra que se repete em duas categorias: “franqueza”. E logo aí me sinto compelido a uma declaração franca e aberta feita aos meus colegas de mesa: eu não sou conhecedor de vinhos. Um mea culpa que curiosamente é recebido com simpatia – e até algum humor – pelo painel de enólogos e provadores experientes que faziam parte da mesa 6 do segundo dia da prova cega do prémio Uva de Ouro deste ano, realizado na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril (EHTE) nos dias 13 e 14 deste mês.

Manuel Moreira, presidente da mesa e escanção de elevada reputação, é rápido a apaziguar os meus receios e realiza logo ali um curso intensivo de dois minutos sobre o que é esperado de um provador numa prova de carácter isento. “Para além de premiar ou penalizar os vinhos de acordo com as nossas preferências, temos de o avaliar de acordo com critérios técnicos: ter em conta a idade, se apresenta defeitos, as qualidades olfativas, como se desenvolve no palato, se existe presença de taninos desagradáveis, qual a sua persistência e acidez na boca, entre outros.” Ainda assim, os meus níveis de confiança não eram os melhores.

A preparação
Um dia antes, no papel de observador, familiarizei-me com a metodologia. Seis mesas, cada uma com um mínimo de seis provadores, atravessaram duas séries de prova de vinhos tranquilos, brancos e tintos. As regras já eram conhecidas por praticamente toda a sala, no entanto foram cuidadosamente repetidas: a ficha de classificação, aprovada pelo Instituto da Vinha e do Vinho e que corresponde às normas internacionais; o total desconhecimento da proveniência dos vinhos, garantida pelo serviço desses mesmos vinhos em decantadores, para evitar que um olhar experiente reconheça a forma de uma ou outra garrafa. Para os provadores, a única informação que era facultada – além da cor – era o ano de colheita.
A restante informação fica bem guardada na sala adjacente, onde o coordenador da prova e do Prémio Uva de Ouro, Aníbal Coutinho, faz uma inspeção prévia a todos os vinhos em prova. É aqui, num ambiente controlado e restrito, que, em colaboração com os alunos da EHTE, são preparados os vinhos tranquilos tintos, brancos e rosés e os tão aguardados fortificados.

Para além de premiar ou penalizar os vinhos de acordo com as nossas preferências, temos de o avaliar de acordo com critérios técnicos

Primeiro gole
O primeiro teste, o visual, aquele gesto já clássico de levantar o copo e observar a cor e a transparência do líquido. O segundo teste, agitar o líquido para soltar as fragrâncias, colocar a descoberto a identidade olfativa do vinho. Por fim, levar o copo à boca, sentir o líquido no palato. Aí, a ação que vai contra o instinto, evitar engolir o néctar e enviá-lo para a cuspideira ao meu lado. Sinto-me perdido num mundo novo.

Não são só os procedimentos que me parecem estranhos, é todo o mundo de cheiros e sabores que de repente tenho de identificar ou mesmo adicionar à minha enciclopédia mental, tudo isto enquanto tento avaliar um produto ao qual alguém devotou muito esforço, tempo e até amor. Partilho isto com a mesa, que me ajuda a procurar um caminho. Um ou outro cheiro que me pareceu sentir, as notas cítricas ou florais que aos poucos vou cumprimentando na minha cabeça, por serem cheiros familiares mas que naquele contexto me deixaram perplexo. Já no que diz respeito ao sabor, começo a entender alguns dos parâmetros de avaliação: a acidez, a persistência do sabor na boca, a maneira como o álcool se relaciona com a restante complexidade do vinho. Não era a primeira vez que bebia vinho, mas era certamente a primeira vez que um só gole me levava a retroceder através do processo de produção (com alguma ajuda, é certo), desde a colheita das uvas até às madeiras em que o vinho amadurecera.

O momento aguardado
Quando, na segunda série de vinhos em prova, nos deparamos com o primeiro dos fortificados, o ambiente torna-se um pouco mais agitado. A novidade e expectativa deram a este momento uma importância diferente, uma prova dentro da prova. Não é à toa que são chamados de generosos, e a opinião geral dos provadores era a de que esta seria uma responsabilidade acrescida. “Os fortificados portugueses são das melhores coisas que fazemos e é uma pena que os colegas internacionais e mesmo os consumidores nacionais não os conheçam bem”, diz Manuel Moreira.

Quando faço a prova deste primeiro vinho fortificado, um moscatel, e já com a confiança natural de quem recebeu uma masterclass de vários especialistas na última hora, não tenho dúvidas de que este é não só o melhor vinho que provei nessa manhã, mas em toda a minha vida. Na minha cabeça ecoam as palavras de introdução à prova de Aníbal Coutinho, que nos alertou para a possibilidade de o primeiro vinho de qualquer série, em qualquer um dos dias, ser o melhor de toda a prova, e que não deveríamos guardar as medalhas de excelência para o final, mas para quando fossem merecidas. Defendo isso com a pontuação mais elevada que posso, em rigor, conceder a este moscatel.

A prova decorre com algum debate acerca de um ou outro pormenor, como a idade de certo vinho que não corresponde ao que o seu sabor revela, a maneira como a pacificação de um dos vinhos constitui um obstáculo para um dos provadores, o nível de açúcar dos vinhos e a maneira como isso pode ou não influenciar a experiência do consumidor final.

No final, os provadores entregam as suas fichas de classificação, trocam impressões, bebem por fim um pouco de vinho que guardaram para o final, e tentam adivinhar o que será. Seguir–se-á a compilação das pontuações pelo coordenador da prova e a atribuição das medalhas com base na pontuação média de cada painel.

A ideia geral é a de que, além da qualidade óbvia dos tranquilos, não obstante as dificuldades que as chuvas do ano passado trouxeram ao setor, a introdução dos fortificados neste Prémio Uva de Ouro será vital para o reconhecimento nacional do valor deste legado cultural. Comento com os meus colegas, em jeito de despedida, que, colocando de parte a dificuldade inicial, esta prova foi gratificante, criou uma sede por mais neste, até então, consumidor esporádico. Ninguém acha estranho. Afinal, o vinho faz parte da nossa herança genética e não há experiência, ou falta dela, que nos separe dele.