Gala Final 2016

O verdadeiro terroir

do vinho português são as pessoas

A gala final da 4ª edição do prémio Uva de ouro foi uma noite dedicada à partilha, à magia que une pessoas de volta do vinho, quer sejam especialistas ou principiantes neste mundo complexo. A consagração de um prémio que é, cada vez mais, parte essencial do código genético da cultura vínica em portugal

Num mercado normalizado e que segue regras bem definidas, como é então possível que existam tantos vinhos de qualidade, tantas regiões, tantas categorias? A resposta é simples e reside nas pessoas que são, verdadeiramente a origem do vinho. O terroir, esse, é responsável por algumas das características organolépticas do vinho, mas a sua essência – alguns dirão mesmo a sua alma – deriva da persistência dos produtores, da coragem dos enólogos e até da fé dos consumidores. É esta componente humana que fica cada vez mais evidenciada com as edições sucessivas do Concurso Uva de Ouro, que comprovam a qualidade do vinho nacional e de forma cada vez mais inclusiva, mais democrática. Enaltecer o vinho é agradecer às pessoas que o vivem e que o fazem “viver”.

O lado espiritual do vinho
A percentagem de material genético que nós, humanos, partilhamos com os restantes seres vivos, é algo de avassalador. Basta uma pequena “vírgula” no texto que compõe o nosso património de ADN para fazer toda a diferença. E é essa diferença que dá origem a toda esta fantástica biodiversidade que o nosso planeta alberga, resultando nas pessoas que formam as nossas redes sociais – as de carne e osso, não as virtuais – mas também nas redes biológicas, que sustentam a nossa vida. Entre elas, a vinha assume-se como uma das redes mais complexas. Só no nosso país, estão identificadas mais de 280 castas, sendo Portugal o segundo país em todo o mundo com maior número de castas nativas. Ao partilharmos uma boa parte do nosso alfabeto genético com a vinha, não será de esperar que partilhemos também um pouco da sua essência, do seu espírito?
O vinho faz parte de se ser português e cada vez mais assim o é. Observamos o aparecimento de uma geração jovem que estreita os laços com este lado cultural, mesmo espiritual, com a produção de vinhos, com o conhecimento de como a vinha está enraizada – passe-se a expressão – no nosso universo social, histórico e biológico e, isso revela-se em melhores vinhos e consumidores mais atentos. Nos últimos anos, muita dessa evolução deve-se aos esforços do Concurso Uva de Ouro e, como Aníbal Coutinho fez questão de salientar no seu discurso de encerramento da Gala da 4ªa edição – realizada no dia 3 de junho de 2016, em Paço de Arcos -, graças às pessoas que o tornam possível.

Os números da noite
Cento e vinte e oito vinhos premiados, entre os vinhos de Excelência (46) e os Melhores da Região (82), é um número mais do que expressivo. É um número que deixa orgulhosos todos os que defendem o vinho português e constatam que, um concurso que segue as regras de organizações internacionais, distingue mais de uma centena de vinhos da maior qualidade, facilmente acessíveis ao consumidor final, através de uma das maiores cadeias de retalho do país. Este é um sinal claro – para dentro de fronteiras mas também para os mercados internacionais – que o vinho em Portugal não é um fruto do acaso, mas sim do trabalho árduo e de conhecimento antigo conciliado com as práticas mais recentes de produção. Motivo de orgulho é também a página do anuário do Instituto da Vinha e do Vinho, recentemente publicado, onde figura o Prémio Uva de Ouro como concurso homologado, como se espera vir a figurar em anos seguintes.

“Só no nosso país, estão identificadas mais de 280 castas, sendo Portugal o segundo país em todo o mundo com maior número de castas nativas”

Uma noite de prémios e muita magia

Liliana Campos e Mário Daniel foram responsáveis por uma noite animada no Hotel Vila Galé Collection Palácio dos Arcos, onde o glamour e a magia de ambos conquistaram os convidados

Ninguém fica indiferente aos encantos de Liliana Campos, uma cara já familiar nas galas de entrega dos prémios Uva de Ouro. Nesta 4ª edição, as atenções foram, contudo, divididas com os números de magia de Mário Daniel, que envolveu todos os membros do público em momentos que deram origem a exclamações de espanto, muitos risos e boa disposição.
Depois de um jantar requintado, acompanhado de vinhos da gama Contemporal, chegou o momento de entregar os prémios de Excelência aos mais de 30 vinhos eleitos, entre vinhos tranquilos, fortificados e os recém-chegados vinhos efervescentes. Vários nomes bem conhecidos do setor vitivinícola português foram subindo ao palco para receber um, ou mesmo vários dos troféus feitos de um dos materiais mais preciosos do mundo dos vinhos, a cortiça portuguesa.

Sorrisos e estratégias
Com tantas personalidades do setor reunidas na mesma sala, torna-se quase impossível não falar de estratégias para o futuro do vinho português. E ainda bem que assim é, porque no meio de um ambiente informal e descontraído, ainda assim são discutidos assuntos sérios, como a estratégia de divulgação e promoção de um dos mais importantes produtos nacionais, por cá e também além-fronteiras. Pegões esteve em destaque ao levar ao palco vários vinhos premiados e não passou ao lado o facto de este terroir com características muito específicas ter uma espécie de “irmão gémeo” no terroir de Bordeús. A diferença entre ambos reside na fama do terroir francês, que se deve a mais de 100 anos de campanhas de marketing a uma escala global, face aos cerca de 20 anos de divulgação da região de Pegões. “É preciso tempo”, refere Jaime Quendera, enólogo responsável por vários do vinhos premiados da noite, “mas é possível equipararmo-nos”. Já Victor Damião, da Adega de Cantanhede, defende que um excelente catalisador para o processo seria o incentivo para a abertura de restaurantes de gastronomia típica portuguesa em mercados internacionais. Boas ideias a reter.